Fuga do Campo 14

Essa semana terminei de ler um dos livros mais legais de toda a minha vida, fiquei economizando ele e lendo só um trecho por dia, mas não adiantou… Ele acabou. Mas pra não deixar a história morrer, vou contar um pouquinho pra vocês sobre esse que é meu novo livro favorito, afinal eu nunca aprendi tanta coisa em tão poucas páginas e imagino que bastante gente possa se interessar sobre o assunto, que é tão triste que acaba sendo meio surreal: hoje vamos falar sobre a Coréia do Norte. Todo mundo já sabe que existe uma Coréia boa e outra ruim… A boa tem musicas, filmes e cosméticos muito legais, mas mesmo assim eu acho a ruim muito mais interessante e sou meio viciada em estudar e ler sobre ela já faz bastante tempo. Se você tá completamente por fora, mas com uma vontade louca de aprender coisas novas, se liga nessas diferenças:

Agora, a parte mais curiosa e diferente é que na Coréia do Norte ou Republica Democrática Popular da Coréia, como eles chamam de verdade (ou Chosŏn Minjujuŭi Inmin Konghwaguk nem acredito que já decorei esse nome e digito isso da mesma forma que digito “batata”) eles têm um regime politico totalmente diferente e unipartidário, então a opinião civil e os direitos humanos não valem nada lá e o regime funciona como se fosse literalmente outro Planeta, totalmente diferente do nosso. Eu não sei a razão exata, mas eu adoro ler sobre eles! Acho que dedico cerca de 20% do meu tempo na internet pesquisando sobre isso, é uma pena que as fontes na maioria das vezes não são confiáveis (as opiniões divergem muito sobre o assunto) e o país não é muito veiculado na mídia. Acho que foi por esse motivo que eu fiquei TÃO contente quando tava na Bienal do Livro e o Raoni me ligou falando que a Intrínseca estava vendendo este livro TÃO difícil de encontrar!

Se você pesquisar um pouquinho sobre a Coréia do Norte no google vai ver que as pessoas odeiam aquele lugar mais que tudo, dentre outros motivos por causa de campos de concentração. Como é muito difícil achar informação sobre isso eu acreditava que não fosse algo grave ou muito terrível, sempre imaginei pessoas trabalhando em condições precárias e morando em alojamentos pobres, mas até achava bonito porque eles faziam isso pelo país deles. Cara, o que eu tinha na cabeça? Os campos de trabalho forçado não são nem um pouco parecidos com isso e seus funcionários tampouco são pessoas estimuladas como eu imaginei.

Claro que eu aprendi isso tudo lendo Fuga do Campo 14 e muita gente já me disse para não acreditar porque quem escreveu foi um jornalista americano e aquela coisa toda. Mas me pareceu bem convincente, tanto os relatos do coreano que cedeu sua historia para essa biografia, como também as fontes citadas são bem legais e passam bastante credibilidade. Leiam e tirem suas conclusões, mas foi a coisa mais informativa e interessante que já achei para vender! Estou ainda mais empolgada para ler sobre o assunto e visitar Pyongyang (meu sonho já faz bastante tempo, na verdade). Vamos ao livro:

Shin Dong-hyuk nasceu e cresceu em um campo de trabalhos forçados na Coreia do Norte. Até hoje, é o único prisioneiro com esse perfil que conseguiu escapar.

Shin viveu 23 anos de sua vida no Campo 14, um dos imensos complexos destinados aos presos políticos em meio às montanhas íngremes da Coreia do Norte. Localizado cerca de 80 km ao norte de Pyongyang, capital do país, é um distrito de controle total para casos considerados irredimíveis. Seus residentes, tratados como escória, não têm acesso sequer à doutrinação ideológica – o que incluía os ensinamentos do Querido Líder Kim Jong Il. Trabalham de 12 a 15 horas por dia em minas de carvão, fábricas e fazendas, muitas vezes em situações de risco, até encontrarem a morte em execuções sumárias, acidentes de trabalho ou doenças relacionadas à desnutrição. Quem nasce no Campo 14 está condenado à prisão perpétua por conta dos supostos delitos cometidos por seus antepassados. As crianças aprendem a sentir vergonha de seu sangue traiçoeiro e a “lavar” sua herança pecaminosa delatando os próprios pais. De lá, ninguém foge.

Shin é a exceção. Ele sobreviveu às cercas eletrificadas da prisão e, mesmo sem conhecer ninguém no mundo exterior, deixou para trás a Coreia do Norte. Mas, além das cicatrizes das torturas que sofreu, ele também carrega consigo as marcas de uma infância sem amor e um terrível segredo do passado. Fuga do Campo 14 revela com riqueza de detalhes o cotidiano árido e sem perspectivas dos prisioneiros políticos na Coreia do Norte, com um capítulo específico sobre as regras do campo, além de mapas do local e um caderno com desenhos feitos pelo próprio Shin. Em um relato surpreendente, o jornalista Blaine Harden lança luz sobre uma realidade até então oculta e impenetrável aos olhos do Ocidente. Com sensibilidade, ele acompanha a impressionante jornada de Shin rumo à liberdade.

Já vou avisando que se você tem estomago fraco, coração mole ou alguma doença tipo síndrome do pânico, não deve ler esse livro! Foi a biografia mais determinante e incrível que já li, mas eu jamais vou permitir que a minha mãe leia, por exemplo. Pense bem se você tá afim de ficar sabendo das coisas terríveis que acontecem do outro lado do mundo: agora me sinto egoísta e inútil 90% do meu dia, porque não estou fazendo nada de interessante para colaborar ou divulgar coisas que acontecem lá, estou simplesmente ignorando esse fato #pentelha.

Pra mim o que o governo norte-coreano faz nos campos de trabalho forçado é bem pior do que qualquer nazista já fez. É realmente chocante! Eu não vou contar detalhes porque tudo na vida do Shin é uma longa história que tem ligação com outra história do campo que está diretamente relacionada com um momento importante da economia da Coréia do Norte. Mas no fim do livro tem algumas ilustrações bem básicas feiras pelo próprio refugiado, que contam bem resumidamente como foi a trajetória da vida dele, no campo de trabalhos forçados e na fuga:

Os professores da escola de Shin no Campo 14 eram guardas uniformizados. Sempre portavam ima pistola, e Shin viu quando um deles surrou até a morte uma colega de seis anos de idade, golpeando-a com uma vara usada para apontar para o quadro-negro.

As crianças dos campos viviam em busca de alimentos, comendo ratos, insetos e grãos de milho não digeridos encontrados no estrume de vaca.

Shin viu a mãe ser enforcada e o irmão fuzilado, por terem planejado uma fuga. Shin não disse nada a ninguém durante quinze anos, mas sabia que era o responsável pelas execuções.

Antes que a mãe e o irmão fossem mortos, Shin foi detido durante sete meses em uma prisão subterrânea secreta, no interior do Campo 14. Tinha 13 anos de idade.

Na prisão subterrânea, os guardas torturaram Shin sobre uma fogueira, procurando descobrir seu papel na fuga planejada pela mãe e pelo irmão. Para impedi-lo de se contorcer e se desviar das chamas, eles furaram sua barriga com um gancho de aço.

Como punição por ter deixado cair uma máquina de costura enquanto trabalhava na fábrica de roupas do campo, os guardas usaram uma faca para cortar o dedo médio de Shin, na altura da primeira falange.

Para trabalhar em um destes campos de concentração de trabalhos forçados na Coréia do Norte, você meio que não precisa ter feito nada para merecer: Shin nasceu lá dentro e se não tivesse fugido, nunca sairia de lá! Quando uma pessoa comete algum crime político, automaticamente suas próximas três gerações são consideradas indignas para a vida comum e “livre”, portanto são enviadas para um campo como esse. Existem várias concentrações dessas e estima-se que cerca de 200mil pessoas estão vivendo hoje em dia tudo o que Shin Dong-hyuk viveu. A maioria delas é cristã… Sabia que é crime ser cristão na Coréia do Norte?! Acho curioso (e admirável) gente tão sofrida ainda acreditar em Deus. Mas como todos os norte-coreanos, dentro e fora do campo, são levados pelo governo a acreditar que o país deles é o paraíso e o resto do mundo é bem pior, existe uma falsa sensação de qualidade de vida.

Assim que a galera entra no campo, precisa decorar dez regrinhas de ouro para a boa convivência e preservação da própria vida, se liga o que Shin aprendeu (se clicar na imagem abre grandona):

Acreditem ou não, todos esses spoilers que eu contei são apenas pequenos detalhes de toda a história que o livro conta, então se você ficou interessado pelo tema, precisa ler este livro! Sei que conhecer fatos tristes não mudarão eles, mas faz parte da atualidade política, é cultural e muito interessante. Tem pra vender na Saraiva, na Cultura, na Travessa, na Internet e o preço sugerido é de R$ 24,90. Se você acha que o texto politico pode ser meio complicado, pode ler o primeiro capitulo aqui, é muito fácil se familiarizar com a linguagem, todo mundo entende!

Shin em 2011, com 23 anos e vivendo nos Estados Unidos.

A minha indicação de leitura para o fim de semana é essa, meio triste meio sem final feliz? Provavelmente. Mas a historia de Shin é, do começo ao fim, incrível e desafiadora. Ensina sobre uma historia de um país que dificilmente temos a oportunidade de aprender, portanto vale a leitura. Eu adorei muito, queria que tivesse uma continuação até, com dados pessoais, signos, relacionamentos amorosos, comidas preferidas… Mas acho que só eu vou querer ler esse, né? Hahahaha.

Mais alguém conhece um bom livro sobre a cultura norte-coreana? O que estão lendo agora? Beijo e até segunda-feira!

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