10 dicas para fazer sua própria história em quadrinhos

1 de setembro de 2014

Bom dia, capangas! Aqui quem fala é Raoni Marqs. Estou aqui hoje pra contar sobre o doloroso processo de fazer uma história em quadrinhos! Eu disse “doloroso”? Claro que não! É um processo super divertido e rápido! (Nem é: demora muito e é totalmente um sofrimento. Mas no fim das contas é sempre legal.)

Como poucos de vocês sabem, essa semana, entre os dias 4 e 7 de setembro, eu vou estar com os meninos da Max Reebo numa mesa na Gibicon em Curitiba, onde nós vamos vender quadrinhos e lindos pôsteres!

O Daniel e o Pedro fazem tiras semanais e vão vender uns compilados e prints das tirinhas deles. Já eu vou levar cinco pôsteres de games em A3 e uma história em quadrinhos feita exclusivamente para esse glorioso evento, chamada “Khorn”.

Então, pra entrar no clima do evento, vamos rever o delicioso processo que foi criar esse quadrinho do zero, mostrando cada etapa importantíssima desse calvário… DIGO DIGO, sonho profissional! hehehehehe..

1 – Pense e planeje a sua história:

Nem tente começar a desenhar direto, porque vai ficar horrível. Pra começar, você precisa saber o que vai acontecer na sua HQ. Você pode até ter criado os personagens antes da história, mas nunca machuca ter a história antes dos personagens.
Pra ajudar no processo de realmente decidir os pontos importantes da narrativa eu pego vários pedaços de papel e coloco um evento da história em cada um. Assim eu posso mudá-los de ordem e enxergar a coisa toda pra ver se tudo está acontecendo do jeito que tem que ser – como o bom Syd Field manda n’O Manual do Roteiro.

2 – Desenhe os seus Personagens, Cenários e Objetos:

Agora que você já sabe a história (quais são seus personagens, o que acontece com eles e aonde eles vão), você entra na fase do design: aqui você precisa decidir como eles são, como são os lugares por onde eles passam, e que objetos importantes interagem com eles.
É muito importante que você desenhe isso tudo detalhadamente antes de ir para as páginas de fato, porque se não decidir os detalhes antes, é bem capaz de errar depois: o seu personagem tem uma cicatriz? De qual lado? Ele usa camisa de bolinhas ou listras?
Da mesma forma é sempre bom ter um diagrama de continuidade: se seus personagens trocam de roupa ou apanham no decorrer da história, faça um desenho separado dele com os machucados ou com as roupas diferentes.

3 – Faça um Storyboard:

Se você já decidiu quais são os eventos e os elementos da sua história, está na hora de planejar a narrativa: o storyboard (ou name) é um rabisco de como são as páginas da sua HQ. Qual o tamanho dos quadros, o enquadramento dos personagens, as falas e as linhas de movimento. Coloque o máximo possível nesse storyboard, porque esse vai ser o seu manual para quando for desenhar de verdade? Você precisa pensar e desenhar tudo isso, porque o que não estiver ali, não vai estar na página final. Não deixe nada para improvisar na hora de desenhar a página final. Sempre desenhe o storyboard com as páginas lado a lado: assim você não só pode desenhar as páginas duplas (two-page spread) como também vai saber o que o leitor vai olhar cada vez que virar a página.

4 – Refaça o Storyboard:

Não importa qual o número de páginas da sua história, fazer o storyboard vai sempre demorar mais do que você pensa – afinal, a qualidade dos desenhos nessa etapa é mínima (só o suficiente pra entender o que você quer desenhar no resultado final… ou seja, rabiscos). Então, quando você terminar o storyboard você vai se achar um herói e ficar muito feliz que essa etapa acabou. Mesmo assim, depois que terminar o storyboard, dê um dia de descanso pra você mesmo e depois faça tudo de novo. Vá conferindo o seu primeiro storyboard e mudando tudo o que está ruim – o que vai ser muita coisa. Sério, se tem uma coisa mais importante do que fazer um storyboard para planejar a sua história, é fazer um segundo storyboard pra corrigir os erros que você fez da primeira vez.
Use pouco papel: você está fazendo thumbnails das suas páginas, não precisa fazer cada página em uma folha – normalmente, com um A4, eu faço duas páginas por folha no primeiro storyboard e oito páginas por folha no segundo.

5 – Desenhe os quadros:

Não adianta adiar, uma hora você vai ter que desenhar as páginas reais da sua história em quadrinhos. Então imprima umas folhas com margens especiais (pra saber até onde você pode desenhar sem que a gráfica corte seus desenhos quando for imprimir) e mãos à obra! Comece sempre pelos quadros – como é dentro deles que vai se passar a sua ação, é importantíssimo que você acerte o tamanho dos quadros (onde vão as linhas) pra que não sobre ou falte espaço para os desenhos que você vai colocar dentro de cada quadros. Para isso, é bom ter se dedicado ao storyboard, porque ele também é o guia do tamanho e posição dos seus quadros. Lembre-se sempre de que o espaço entre os quadros é importantíssimo para o fluxo da leitura: o espaço vertical entre os quadros é sempre maior que o horizontal. (Eu uso 7mm para os verticais e 2mm para os horizontais.)

6 – Desenhe os balões e onomatopeias:

Depois de desenhar o espaço onde vão ficar os seus desenhos, é hora de desenhar os balões de fala – porque, assim como os quadros, eles vão dizer qual o espaço que sobre para os desenhos de fato, já que tudo vai ter que estar entre os balões e as linhas do quadro. Pense no tamanho aproximado que os balões tem que ter para que caibam as falas que você escreveu no storyboard – se achar que um balão está pequeno demais para o texto que vai dentro dele, faça um balão maior: sempre “arredonde pra cima”.
Quanto às onomatopeias, elas precisam ser planejadas com antecedência, assim como a posição dos desenhos e dos balões. Se tentar colocá-las depois de tudo (igual eu), não vai ter espaço pra elas e vai ser tudo horrível (e é por isso que não tem nenhuma onomatopeia em “Khorn”).

7 – Desenhe:

Agora é a hora! Dê o seu melhor e desenhe até os ossos da mão doerem, porque quadrinhos são feitos de muitos e muitos desenhos feitos e refeitos. Então não fique de preguiça e desenhe o rolê dos seus sonhos até ele se parecer com os seus sonhos.
Se um desenho estiver quase pronto e você perceber que ele está um pouco mais pra baixo do que deveria, apague e faça tudo de novo, não importa o quão trabalhoso – daqui pra frente você está desenhando o que as pessoas vão ver e ler, então nada pode estar abaixo de “ótimo”. Se nessa etapa os seus desenhos não forem os melhores possíveis, o seu produto final vai ser tão ruim quanto.

8 – Artefinalize:

Depois de desenhar as linhas, os balões e as cenas, parece que você já fez muito, mas ainda falta mais da metade, então não desanime! Agora você tem que redesenhar TUDO ISSO com tinta (você pode estar usando Uni Pin Fine Line, Pentel Pocket Brush Pen, uma dolorosa pena e nanquim (como eu usei) ou até mesmo estar fazendo tudo isso no computador: você vai ter que redesenhar todos os seus desenhos do mesmo jeito.

Mas agora os seus traços tem que ser perfeitos e você vai ter sempre que escolher um entre todos os riscos que você fez para o esboço. Mantenha a calma e vá em frente (se tem uma coisa que NÃO vai terminar a sua HQ é o medo de errar. Se errar, só mande um corretivo em cima desse traço errado e faça de novo).
Para garantir que as coisas vão dar certo nessa etapa, siga sempre a ordem certa do que finalizar primeiro:
• Balões ou qualquer outra coisa que saia para fora dos quadros
• Linhas dos quadros
• Personagens
• Cenários
• Linhas de Movimento
Sempre vá do primeiro plano para o último (da frente para o fundo). Para finalizar onomatopeias, veja se elas estão na frente ou atrás de alguma coisa e coloque-as na ordem acima.

9 – Retoques finais:

Quando tiver todo o seu manuscrito pronto, apague tudo o que estiver à lápis – isso vai ser terrivelmente doloroso se você fizer tudo de uma vez (Khorn tem 50 páginas, então realmente doeu muito apagar 50 páginas de milhões de traços de lápis de uma vez só).


Quando esse martírio acabar, mande tudo pro scanner e salve todas as páginas por número, para não se perder. Lembre-se de digitalizar essas páginas com pelo menos 300dpi (pro caso de querer imprimir isso depois), se não a qualidade dos seus desenhos vai ficar horrível, não importa o quanto você trabalhou duro neles.

Com tudo lindo e organizado no seu computador, abra página por página e pinte as áreas de preto e os tons de cinza – você também pode pintar o preto no próprio manuscrito, mas é mais prático e menos arriscado fazer isso no computador.
Se você for smart e preguiçoso igual eu, faça as linhas de movimento no photoshop – já que assim fica bem mais fácil de fazer e muito mais difícil de errar.


Depois disso coloque as falas nos seus balões e pronto!

10 – Publique esse rolê:

Agora que você já tem tudo pronto, você pode fazer o que quiser com a sua própria história em quadrinhos! Imprima e venda, mande pras editoras pra ver se alguém se apaixona por você, ou simplesmente coloque tudo nas interwebs pras pessoas lerem sem enrolação.
Faça uma linda capa e colha os louros do seu trabalho – os louros e as críticas. Lembre-se, o primeiro trabalho de todo mundo é praticamente um lixo que não vai se comparar aos seguintes. Então curta o fato de que você foi capaz de enfrentar todo esse doloroso processo e veja tudo o que você errou dessa vez pra acertar na próxima, cara.

Para ver o resultado de todo esse esforço, vou colocar aqui as 10 primeiras páginas da minha história em quadrinhos e vocês podem ler e ficar morrendo de vontade de ler o resto!

É isso amigos! Se você estiver de bobeira em (ou perto de) Curitiba neste final de semana, eu e os meninos da Max Reebo estaremos lá vendendo os nossos trabalhos árduos na mesa número 20, na área externa do Museu Municipal de Arte (Av. República Argentina, 3430, Terminal do Portão) entre os dias 4 e 7 de setembro! Apareçam por lá!

Para quem não puder ir até lá, a gente vai vender tudo da Gibicon na internet eeem breeeve, então aguardem!

Beijosbeijos e até mais, capangas!

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